O assunto é... crônica!
Conforme combinamos, estou postando uma matéria do Uol Educação, escrita pela Profª. Alfredina Nery.
Bom estudo!
Prof. Carlos Porto
Crônica: Gênero entre jornalismo e literatura
Alfredina Nery
A crônica é um gênero narrativo que narra fatos históricos em ordem cronológica, ou trata de temas da atualidade. Publicada em jornal ou revista, destina-se à leitura diária ou semanal e trata de acontecimentos cotidianos.
Ela se diferencia no jornal por não buscar exatidão da informação. Diferente da notícia, que procura relatar os fatos que acontecem, a crônica os analisa, dá-lhes um colorido emocional, mostrando aos olhos do leitor uma situação comum, vista por outro ângulo, singular.
O leitor pressuposto da crônica é urbano e, em princípio, um leitor de jornal ou de revista. A preocupação com esse leitor é que faz com que, dentre os assuntos tratados, o cronista dê maior atenção aos problemas do modo de vida urbano, do mundo contemporâneo, dos pequenos acontecimentos do dia a dia comuns nas grandes cidades.
Há na crônica uma série de eventos aparentemente banais, que ganham outra "dimensão" graças ao olhar subjetivo do autor. O leitor acompanha o acontecimento, como uma testemunha guiada pelo olhar do cronista que tem a pretensão de registrar de maneira pessoal o acontecimento. O autor dá a um fato corriqueiro uma perspectiva, que o transforma em fato singular e único.
Outro aspecto é que as personagens das crônicas não têm descrição psicológica profunda, pois, são caracterizadas por uma ou duas características centrais, suficientes para compor traços genéricos, com os quais uma pessoa comum pode se identificar. Em geral, as personagens não têm nomes: é a moça, o menino, a velha, o senador, a mulher, a dona de casa. Ou têm nomes comuns: dona Nena, seu Chiquinho, etc...
É assim que podemos dizer que a crônica é uma mistura de jornalismo e literatura. De um recebe a observação atenta da realidade cotidiana e do outro, a construção da linguagem, o jogo verbal. Algumas crônicas são editadas em livro, para garantir sua durabilidade no tempo.
Leia a seguir uma crônica de um dos maiores cronistas brasileiros:
Recado ao Senhor 903
Vizinho –
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia,
consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor
reclama contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita
pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer
que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do
prédio é explicito e, se não fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a lei e a
polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é
impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou
melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o
seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois
números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a leste pelo
1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao
alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados
e silenciosos; apenas eu e o oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos
fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da
maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de
hoje em diante, um comportamento de manso lago sul. Prometo. Quem vier à minha
casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21,45, e
explicarei: o 903 precisa repousar das 22 horas às 7 pois às 8:15 deve deixar o
783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde trabalha na sala
305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser
tolerável quando o número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando
dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhes desculpas – e prometo
silêncio.
Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro
mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: ” Vizinho, são três
horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou”. E o outro respondesse:
“Entra vizinho, e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui estamos todos a
bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela”.
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os
amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das
estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre
os humanos, e o amor e a paz.
(Rubem Braga. "Para gostar de ler". São Paulo:
Ática, 1991)
Análise da linguagem
1) Intenção e linguagem
O narrador-personagem da crônica (ou remetente da carta ao
vizinho) reconhece que faz barulho e por isto pede desculpas. Veja, assim, as
palavras e afirmações que usou para construir essa ideia:
"consternado", "desolado", "lhe dou inteira
razão", "O regulamento do prédio é explícito", "Quem
trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso", "Peço
desculpas", "Prometo silêncio".
No entanto, através de ironias, o narrador reconhece sua
falta, mas explicita que não concorda com a situação, uma vez que a aborda
também de outro ângulo, problematizando as relações entre as pessoas e não
simplesmente aceitando a situação como algo imutável. E faz isso,
especialmente, quando:
ironiza a estruturas dos prédios em que as pessoas ficam
empilhadas, perdendo o contato humano;
refere-se a todos os vizinhos, incluindo ele próprio, pelo
número do apartamento e não pelo nome;
critica o isolamento e a distância entre as pessoas cujas
vidas estão limitadas pelas normas que cerceiam o convívio humano;
sonha com outra relação mais humana e fraterna, entre as
pessoas.
2) Ironia e humor
a) Veja como o narrador usa uma fina ironia quando fala de
si mesmo e dos motivos das reclamações do vizinho:
"Todos esses números são comportados e silenciosos: apenas eu
e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis;
nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da
lua." Verifique ainda como o uso do elemento "apenas", usado
duas vezes intensifica a sua exclusão em relação aos demais moradores do
prédio.
b) O excesso de referência a números acaba por criar um
efeito de humor e crítica social:
"Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de
hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha
casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21h 45, e
explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8h 15 deve deixar o 783
para tomar o 109 que o levará ate o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala
305."
Enfim, o efeito de humor tem a ver com:
o contraste entre uma situação e outra: os que mantêm
silêncio e pessoas, como o narrador, que não o fazem;
o inesperado: o texto parece se encaminhar para um sentido e
bruscamente aponta para outro.
3)Uso de verbo
Quando o narrador quer sonhar com outra situação em relação,
não só à sua vizinhança, mas também à vida na cidade grande, veja que ele
constrói essa ideia usando verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo, o que
indica possibilidade/desejo/hipótese:
"Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e
outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse:
'Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou'. E o
outro respondesse: 'Entra vizinho e come do meu pão e bebe do meu vinho.
Aqui estamos todos a bailar e a cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a
lua é bela'.
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre
os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho
das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade
entre os humanos, e o amor e a paz.”
4)Uso dos artigos
Releia os trechos:
a) "Quem fala aqui é o homem do 1003.".
Foi usado o artigo definido ( o ), quando o
narrador refere-se a si mesmo, particularizando, dessa forma, um indivíduo,
entre outros.
b) "Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e
outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse (...). E o outro
respondesse (...)"
Há artigo indefinido ("um homem"),
quando foi introduzido um elemento ainda não citado no texto, generalizando-o.
Há artigo definido ("o outro"), quando novamente se
tem um indivíduo já citado, particularizando-o.
Veja que essas escolhas linguísticas vão constituindo a
ligação/coesão entre as partes do texto, de tal maneira que, mais do que saber
o nome das classes da gramática - substantivos, adjetivos, artigos, advérbios,
verbo, conjunção, pronome, preposição, numeral - é importante saber suas
articulações na construção dos sentidos de um texto.
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/cronica-genero-entre-jornalismo-e-literatura.htm. Acesso em: 14 jun. 2016. (Adaptado)
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